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O Evangelho de José e Pilar

Martes, 14.08.12

“Percebi que tínhamos nos tornado amigos quando o José começou a me zoar, a falar das minhas calças rasgadas, a brincar comigo”, conta o cineasta português Miguel Gonçalves Mendes, 33 anos. O José a quem ele se refere é Saramago (1922-2010) e a amizade em questão despontou durante a produção de José & Pilar, documentário que retrata a vida do escritor lusitano e de sua esposa, a espanhola Pilar del Río. Foram, na verdade, quatro anos de convivência, originando não somente o filme, como também o livro José e Pilar: conversas inéditas. Lançada em Portugal em novembro do ano passado, a publicação chega ao Brasil neste mês, trazendo entrevistas com o casal feitas por Miguel, que não couberam na película. “Eu tinha todo esse material, que achava magnífico e não ia ser usado. A opção foi o livro. Você sabe que ninguém fica rico publicando um livro desses, né?”, brinca. “Bom, não fica rico fazendo documentário também”, completa entre risos.

Mas, se no filme o cineasta é invisível, no livro, ele aparece bastante. Confessa seus medos e inseguranças, recebe afagos (quase sempre do português), puxões de orelha (geralmente da espanhola) e pede conselhos. “Sim, estou bem exposto. Mas não vejo problema. Nunca tentei parecer inteligente”, ressalta. Miguel conta que entrevistar José e Pilar separadamente, em sessões de três horas cada um, foi uma maneira de entrar pouco a pouco na intimidade do casal. Conseguiu que eles se abrissem e se aproximou deles também. No livro, as conversas giram em torno de vários temas, como a militância política, o ofício de escrever, o amor e a morte – e têm uma aura de bate-papo entre amigos. Outro ponto positivo é que permite aos leitores conhecer Pilar mais a fundo, uma mulher, como descreve Valter Hugo Mãe no prefácio do livro, “de opiniões rotundas e sensibilidade austera” e de uma inteligência “quase assustadora”.

Do inalcançável

O encontro inicial que viria a resultar em documentário e livro foi uma espécie de romance. Não faz muito tempo, Miguel precisava enfrentar filas para ter um autógrafo de Saramago. Até que um dia conseguiu o telefone da casa do Nobel. Ligou e quem atendeu foi o próprio. Explicou que estava fazendo um filme sobre a Galícia e disse que gostaria de sua participação lendo um trecho do Memorial do convento. “Venha, homem”, foi a resposta. Anos depois, entrou em contato novamente. Dessa vez, pretendia fazer um documentário sobre o escritor. Pretendia, também, mudar a imagem que se tinha de Saramago. “De alguma forma, queria que Portugal se pacificasse com ele, porque não acreditava que um homem que escrevia aqueles livros era a figura que pintavam. Ele tinha um grande sentido de humor, era maravilhoso, e acho que poucas pessoas sabiam disso.”

Foram dois anos para convencer Saramago e Pilar a abrir as portas de casa. “Da primeira vez que contei o que queria fazer, ele disse que era o que faltava. Que a intimidade deles era apenas deles, mas, se eu quisesse entrevistá-los, não havia nenhum problema.” Mas Miguel, como conta, usou a estratégia do “chato simpático”. Insistiu tanto e com tanto jeito que, por fim, convenceu-os. “Ele nos enganou desde o primeiro momento. Mentiu mesmo. Pensei que seriam duas semanas, até porque sabia que eles [a produtora] não teriam meios para mais. Quando percebemos, já eram passados quatro anos”, diz Pilar. O cineasta calculava a necessidade de passar um ano com o casal, mas vendeu a história de que seriam “uns dez dias”. Viajou até a ilha espanhola de Lanzarote – onde moravam os retratados – e, depois de alguns dias por lá, explicou a necessidade de voltar mais vezes para continuar o projeto. Eles já não souberam dizer não. “Sabia que ia demorar muito mais. Não posso te conhecer e, em cinco minutos, perguntar como é sua relação com seu pai. É necessário, para esse tipo de retrato, com esse grau de verdade e profundidade, que se crie uma relação”, afirma ele.

Assim, o cineasta seguiu o casal durante viagens, festas familiares e filmou o cotidiano deles em Lanzarote. Segundo Pilar, a rotina não foi alterada pela presença do intruso. “Em nenhum momento medimos as consequências, uma vez que havíamos dito sim. Dissemos sim e pusemos nossas regras: não estaremos condicionados a nada, não posaremos para nada, não vamos nos disfarçar e vamos fazer nossa vida com naturalidade.” Ela conta que Miguel sempre pedia um “bocadinho” mais. Queria, por exemplo, cenas de Saramago fazendo a barba ou na piscina. “Às vezes, eu era muito dura. O pacto era filmar o cotidiano, e foi cumprido. Intimidade, não. A intimidade do Saramago está nos seus livros.” O cineasta confessa que há no seu trabalho algo de voyeurismo, mas diz que tinha bem claro seu limite. “Eu não queria ser pornográfico e acho que consegui isso. Alguns fazem filmes para destruir pessoas, eu não trabalho assim.”

Quando o casal assistiu à primeira versão do documentário, foi Pilar quem pediu a retirada de algumas cenas: as que ela se via feia. “Nunca pensei que seria um longa-metragem. Achava que não entraria nada daquilo, então, nunca estou arrumada, penteada, maquiada. Jamais estou vestida para um filme.” Ela também pediu para Miguel mudar uma cena em que aparece conversando com Saramago e um casal de amigos sobre Hillary Clinton. Acreditava que sua opinião não ficava clara com a edição feita. As solicitações foram absolutamente ignoradas. “Ela reclamava que estava com cara de louca, com os peitos muito grandes. Coisas assim. Eu dizia: ‘Ah, Pilar, deixa estar’”, se diverte o cineasta.

Dificuldades financeiras e a doença de Saramago fizeram com que o documentário demorasse quatro vezes mais do que o previsto para ficar pronto. Foram 240 horas de gravação, um ano e meio de edição – tempo no qual Miguel continuou filmando o casal –, e, no final, um pesadelo na hora de editar. “Tinha uma versão de três horas e queria cortar para duas. E já estava fazendo merda. Fazer um filme é como lapidar um diamante, se você começar a limpar demais, vai perdendo a forma. Eu estava ficando louco. Todo mundo dizia que eu devia parar a edição.” No dia limite para dar o filme como finalizado, a equipe se reuniu para assistí-lo. “Terminada a sessão, eu falei: não está pronto, não está bom. E todos ficaram olhando para mim, aterrorizados.” Derrotado, foi se lamentar com o casal de amigos. De Saramago, ouviu palavras de consolo: “Miguel, o que tiver que ser será”. De Pilar, como de costume, conselhos práticos: “Quando o Miguel vinha com medo, nós dizíamos: isso é pânico cênico. Toma um comprimido que resolve. E ele chorava (teatraliza o pranto)”, conta ela.

“Passei esses quatro anos com medo, me questionando se ia dar conta. Era um peso enorme estar fazendo um filme sobre uma pessoa que eu admirava. Além disso, havia uma urgência, porque queria muito que José visse o filme”, diz Miguel. Saramago assistiu à versão de três horas que o cineasta preparou, mas não chegou a ver o filme finalizado – morreu em junho de 2010, e o documentário estreou em novembro. “No dia dessa primeira exibição, eu estava supernervoso, mas no final ele fez o melhor elogio que podia ter feito. Disse que várias vezes teve dúvida do que eu estava a filmar, que não entendia muito bem qual era o interesse daquilo. Mas que depois de ver o filme ele achava que era muito mais do que só sobre eles dois, ele achava que era um filme sobre a vida. E eu queria que fosse isso.” Pilar, que também se encantou com o documentário, testemunhou os elogios. “Ele ficou fascinado e disse ao Miguel que ele tinha feito uma grande obra.” Em privado, o escritor disse à esposa: “Esse miúdo promete, esse miúdo vai fazer grandes coisas”.

Mesmo com a parceria com duas grandes produtoras [a O2, de Fernando Meirelles, e El Deseo, de Pedro Almodóvar] e o enorme sucesso do filme, Miguel não lucrou com o trabalho. Pelo contrário, ainda tem uma dívida de 60 mil euros (cerca de R$ 150 mil) no banco e teve que dar o único bem que possui – um pequeno apartamento financiado – como garantia. E valeu a pena? “Pessoalmente valeu a pena. Não em termos de grana. Mas é obvio que, se eu morrer amanhã, morro feliz de ter feito esse filme.”

Saramago uma vez mais

Ganhar dinheiro não parece ser o grande objetivo da vida de Miguel. Ele tem uma postura simples, quase ingênua, na hora de decidir os projetos profissionais. “A vida é curta, rápida e dolorosa demais. Uma das necessidades que tenho é relacionar-me com as pessoas que admiro. Conhecê-las e criar uma relação de igual para igual com elas.” Quando tinha 21 anos e ainda estudava cinema, procurou na lista telefônica o nome do poeta e pintor surrealista Mário Cesariny e ligou, dizendo que queria fazer um trabalho sobre sua vida. Conseguiu. Com Saramago foi mais longe. Entrou e ficou na casa do escritor. No final do documentário, já sem dinheiro para hotéis, ele e a equipe dormiam e faziam as refeições na residência do casal.

“Esses quatro anos com eles mudaram minha vida. Acho que deixei de ter pena de mim. Não há tempo a perder, não podemos ficar deprimidos, é imoral – e olha que nem sempre consigo cumprir isso. Temos a mania de achar que a vida é uma merda, que o país é uma merda. Acho que a maior lição que tirei foi: se o mundo é uma merda, arregaça as mangas e muda ele”, diz o documentarista.

O término do filme e a morte do escritor não afastaram Miguel e Pilar. A jornalista se mudou para Lisboa a fim de comandar de perto os trabalhos da Fundação José Saramago. Desse modo, ficou também mais próxima do amigo (e fã) cineasta. “Ela é a mulher mais espetacular que conheci”, se derrete Miguel. Melancólico declarado, ele admira a força e a energia de Pilar. Ela também o adora, mas é implacável. Critica seu modo de se vestir e o fato de sempre cheirar a cigarro. E não perde a chance de tirar sarro do amigo. Há alguns meses, em um programa de TV, Pilar disse que se conheciam tão bem que era capaz de dizer que tipo de cueca Miguel usava. “São aquelas de listras. É que ele está sempre com as calças caindo e acaba mostrando tudo”, brincou.

E eles continuam unidos pela obra do Nobel português. Pilar administra seu legado, enquanto Miguel – além de colaborar com a fundação – tem em vista um novo projeto sobre o escritor. Antes da morte de Saramago, o documentarista tomou coragem e lhe disse que gostaria de filmar O Evangelho segundo Jesus Cristo. “Você sabe onde está se metendo?”, perguntou o escritor. Miguel nem precisou responder, só assentiu com a cabeça. “Pois já está”, disse Saramago, e assim cedeu os direitos da obra.

A publicação do Evangelho gerou muita polêmica em Portugal. A ponto de o autor, após ser impedido de participar de um prêmio, se mudar para a Espanha. Pergunto a Miguel se ele não tem medo de também ser hostilizado. “Vamos ver, já se passaram 20 anos [desde a publicação do livro, em 1991] e acho que estamos um pouco mais maduros. O que pode acontecer? Dez fanáticos na frente do cinema com cartaz na mão? Não tenho medo.” O cineasta sabe que será outro trabalho difícil e demorado. “O problema é a grana. Você tem dinheiro? Faz um cheque aí que começo a rodar amanhã”, brinca o miúdo talentoso.

Por Ricardo Viel
Fonte: Revista da Cultura

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publicado por Fundación Saramago





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