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La Quinzaine Littéraire elogia édicion francesa de "Levantado del suelo"

Viernes, 04.01.13

O romance Levantado do Chão (1980) acaba de ser publicado pela Seuil em França, com o título Relevé de terre, numa tradução do português feita por Geneviève Leibrich. O crítico Hugo Pradelle analisa a obra na Quinzaine Littéraire, considerando-o "um hino esplêndido à liberdade e à dignidade reencontrada dos homens". Eis a tradução desta crítica publicada naquela revista literária na primeira quinzena de janeiro:

 

Este é um romance inédito no qual Saramago conta, com verve e seriedade, a história de uma família de rurais muito pobres das planícies áridas do Alentejo, desde o início do séc. XX até à Revolução de 1974. Um texto onde surgem ao mesmo tempo as premissas de um projeto literário de grande alcance, uma visão da História, a natureza de uma obra celebratória da ficção e uma língua de uma riqueza fascinante. Um hino esplêndido à liberdade e à dignidade reencontrada dos homens.

 

Levantado do chão, publicado em Portugal em 1980, é seguramente um romance social, um fresco impressionante dessa “gente solta e miúda”, um hino aos humildes, aos que a História ignora e relega para o fim do mundo, lá onde podem estragar-se infinitamente, triturados por um trabalho esgotante, quase desumano, isolados de tudo, atormentados por uma fome abjeta, exangues das privações e das “penúrias”, confundidos numa repetição infinita e insensível. Como se estivessem aprisionados numa terra que os formata, insignificantes, enredados num ciclo sem fim. “A terra é só crosta seca— ou lamaçal, não importa. Cozem-se ervas, vive-se disso, e os olhos ardem, o estômago faz-se tambor, e vêm as longas, dolorosas diarreias, o abandono do corpo que se desfaz de si próprio, fétido, canga insuportável. Apetece morrer, e há quem morra.”

 

 

O romance aproxima-se de uma saga da sobrevivência, da resistência inefável e perturbadora. Saramago faz um enorme esforço para conferir dignidade a estes “oprimidos”, estas “vítimas da fome” que temos tendência a esconder, quando apagamos os lados obscuros da História e fazemos desaparecer a linguagem destes lugares longínquos cujas práticas multisseculares subitamente pareciam abolidas, atiradas para limbos fantasmáticos de um passado que mais valia esquecer. O escritor recusa-se e luta com unhas e dentes para fazê-los renascer das cinzas do esquecimento, para lhes oferecer uma forma de glória póstuma, subtraindo-os ao silêncio sepulcral.

 

Combativo, ele encontra um caminho, estabelece uma língua, elabora um método que não abandonará. Descobre-se neste romance a sua marca de água, uma língua ofegante que nos prende na sua rede, nos envolve na sua densidade particular, encadeando no seu seio compacto todos os elementos do discurso – narrativas, descrições, diálogos interiores ou falados – entrecruzando as temporalidades, até este fluxo imprecatório e alegre, perdidamente melancólico e estranhamente enérgico. Somos tocados pela revelação deste virtuosismo, desta fluidez rouca, da riqueza narrativa justa, do excecional talento de contador de um jovem escritor de 58 anos. O livro poderia não passar de mais um romance social, enraizado num realismo preciso e documentado. No entanto, o que Saramago persegue é algo completamente diferente e avisa-nos logo no arranque do texto: “Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira”.

 

A obra magistral de Saramago joga-se na distância que cria entre o que conta e os meios que utiliza, à beira do abismo de uma prosa que quer dizer tudo, agarrar tudo, envolver tudo. Levantado do chão não pode ser resumido, tantas são as peripécias que nele se entrecruzam, tão densa é a trama, variada, alimentada por idas e voltas constantes, histórias começadas e abandonadas e retomadas, digressões por vezes sábias, por vezes folclóricas, definindo na alternância uma visão ampla da historicidade e o choque de uma geografia particular, oscilando entre o abstrato e o concreto, o universal e o singular. Um ritmo peculiar da narrativa provocado pelas intervenções frequentes de um narrador esquivo que incessantemente volta atrás, faz digressões heterogéneas, comenta situações, dá-lhes espessura, tece uma subtil conivência com o leitor, baralha as pistas, sempre a ironizar, aliviando uma trama particularmente sinistra que poderia tornar-se monótona e insuportável.

 

O processo poderia ser cansativo mas Saramago brinca com tantos registos, introduz uma variedade tão surpreendente nos tons, que pode fazer o que quiser. Ao denunciar com virulência as abjeções do real, consegue ordenar uma relação com o mundo marcada por um lirismo perturbador, circular entre as dimensões humanas e políticas com uma graça inquietante e ficar sempre à distância dos seres e das coisas, mudando as coisas que conta na gesta de uma História que o ultrapassa largamente, criando uma gigantesca sinfonia cuja cronologia inteira, alimentada por cóleras e sofrimentos, avança para a reconquista da liberdade.

 

É a isso que dá corpo a linhagem dos Mau-Tempo, suportando nas costas largas a desgraça de um mundo, os sofrimentos imemoriais dos pobres, dos trabalhadores esgotados pela vida. Levantado do chão acompanha três gerações desta família, do início do séc. XX até à revolução dos cravos de 1974, dando a descobrir o destino exemplar de camponeses miseráves do Alentejo que sobrevivem com “o pouco ou quase nada de cada dia”, condenados a permanecer nas “as santíssimas propriedades que de longe vêm”, prisioneiros de um tempo imutável e deste latifúndio microcósmico onde se jogam todas as injustiças de um mundo indigno. O romance conta como eles “passam” por estas épocas sinistras, atravessando o século e as guerras que o destroem de longe, os sobressaltos de um campesinato que não suporta mais viver num universo “medieval” e brutal, ser esmagado pelos poderosos que não o conhecem e ignoram, até ao “dia essencial da sublevação”.

 

“Foi com tais homens e mulheres do chão levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir”, disse José Saramago quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1998, sublinhando a dimensão autobiográfica da sua obra e prestando homenagem aos seus avós camponeses. Nestas palavras que explicam a sua obra estão traves-mestras de um romance inicial e no entanto magistral, o modo como se entrelaçam uma preocupação política e uma indignação que nunca desmentirá, uma reflexão sobre a natureza da ficção e das personagens que nela existem, autónomas e poderosas, “criadores” e “criaturas” , uma preocupação com a História e das suas reencarnações, do universal ao particular, e sobretudo uma espantosa aventura que a literatura permite viver.

 

Ficamos mudos perante a virulência de uma língua habitada, rugosa como casca de cortiça, arrancada em carne viva, sinuosa como as linhas da mão, audaciosa e convergente, magistralmente tensa, contida, levantada, maravilhada de descobertas, de ritmos surpreendentes, de audácias felizes. É a verve de Saramago um pouco áspera que vai desaparecer progressivamente para se fixar na ironia jubilatória dos últimos textos. É também o abandono de um realismo, de uma forma de prosaísmo terreno, para textos mais abstratos e ideais. Todo o percurso de Saramago, o seu caminho na literatura, está neste texto fundador, enérgico, quase raivoso.

La Quinzaine Littéraire

 

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