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Raised from the ground, la versión inglesa criticada por Ursula Le Guin en The Guardian

Viernes, 04.01.13

A escritora Ursula K. Le Guin publicou no jornal britânico The Guardian uma extensa crítica à versão em inglês de Levantado do Chão [Raised from the ground] de José Saramago, com tradução de Margaret Jull Costa, publicada pela editora Harvill Secker em novembro de 2012. Para a escritora norte-americana, Levantado do Chão contém a melhor cena de morte que alguma vez leu em romance. Num texto empolgante em que cita várias vezes o discurso de Saramago na entrega do Premio Nobel, Ursula Le Guin realça que já neste romance o autor revelava "uma voz madura, tranquila, coloquial e fácil, muitas vezes irónica e com um humor cativante". Aqui segue a tradução do texto de Ursula Le Guin, premiada com o Memorial Astrid Lindgren e com o Prometheus:

 

Nos últimos dois séculos, os romances têm sido escritos sobretudo por autores da classe média para leitores da classe média. Romances sobre os muito pobres, os oprimidos e os camponeses não são escritos por nem para as pessoas sobre as quais falam. Assim, tendem a assumir um tom distanciado, sociológico, e são terrivelmente deprimentes – sugestivos, crus, sem esperança e, necessariamente, brutais. Os dois grandes romances norte-americanos dos oprimidos, “A Cabana do Pai Tomás” [Harriet Beecher Stowe, 1852] e “As Vinhas da Ira” [John Steinbeck, 1939], salvam-se dessa frieza ameaçadora graças à paixão dos autores pela justiça e ao afetuoso respeito pelos seus protagonistas. O mesmo acontece com o romance inicial do escritor português José Saramago “Levantado do Chão”, com um valioso bónus: o autor escreve sobre pessoas com as quais cresceu, a sua gente, a sua família.

 

Dificilmente resisto à tentação de deixar Saramago escrever esta crítica. Foi assim que ele começou o seu discurso do Nobel em 1998: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele a a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós e eram analfabetos um e outro. No inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor do humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.” Viver e trabalhar com os avós quando jovem deu-lhe a experiência subjacente a este romance, a sua inspiração, a sua motivação e o seu tom. No discurso do Nobel, resumiu-o assim: “Três gerações de uma família de camponeses, os Mau-Tempo, desde o começo do século até à Revolução de Abril de 1974, que derrubou a ditadura, passam neste romance a que dei o título de Levantado do Chão, e foi com tais homens e mulheres do chão levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir.”

Saramago deixou o jornalismo e começou a escrever romances tarde na vida, como se uma boa e velha macieira começasse de repente a crescer carregada de fruta. Este romance, publicado em 1980, quando tinha 58 anos, é e não é uma “obra inicial”. Não tem a complexa profundidade dos seus livros mais tardios e o estilo é ainda bastante convencional (tem pontos e parágrafos), mas a voz narrativa é inequívoca: uma voz madura, tranquila, coloquial e fácil, muitas vezes irónica e com um humor cativante, a avançar com fluência mas tecendo-se e entrançando-se em si mesma, errante sem nunca perder ímpeto, como um grande rio a correr por uma terra seca.

A amplitude do seu pensamento e compaixão, o dificil equilíbrio entre a paciência e a confiança de que fala e a sua apaixonada convicção política dão ao romance um foco maior do que muitos outros testemunhos da injustiça humana. Numa passagem em que descreve o espancamento de um homem preso por ter feito greve, o local da tortura não é, como habitualmente, um segredo indizível – porque nada pode ser mantido em segredo. Nada do que é humano está fora da natureza. Tudo está ligado: tudo pode ser dito, tudo pode falar. Uma formiga no chão pensa: “Que pálido está este homem, nem parece o mesmo, a cara inchada, os lábios rebentados, e os olhos, coitados dos olhos, nem se veem entre os papos, tão diferente de quando chegou...” Quando os guardas atiram água sobre a vítima, seguimos a água na sua longa viagem pelas entranhas da Terra, nas nuvens e na chuva, no jarro de barro de onde a derramam “do alto sobre um rosto, queda brusca mas logo amortecida neste escorrer vagaroso pelos lábios, pelos olhos, pelo nariz e o queixo, pelas faces chupadas, pela testa molhada doutra água que é o suor, e assim se fica conhecendo a máscara por enquanto ainda viva deste homem”.

Apesar de envolver tanta coisa na sua visão, Saramago sabe o que deve deixar de fora – sabedoria rara! Não há listas maçadoras de pormenores. Não há os diálogos mecânicos que entopem a narrativa de hoje. Não há o prolongado prazer no sofrimento aclamado como realismo corajoso, que é frequentemente, tanto para o escritor como para o leitor, uma extravagância de fantasia sádica. A única fantasia neste romance pode estar no desfecho inesperadamente confiante. Saramago tinha um grande respeito pela verdade; penso que escolheu terminar a história num momento alto não porque acreditasse que os ideais de justiça social fossem alguma vez cumpridos – não tenho a certeza de que ele “acreditasse” em algo, nesse sentido – mas porque considerava que uma esperança racional era mais útil do que o desespero, e porque procurava a beleza na sua arte. O seu grande livro “Ensaio sobre a cegueira” vira-se também para a luz no final – mas depois o “Ensaio sobre a lucidez” volta atrás novamente.

A morte nos romances modernos é um ritual violento. As pessoas morriam nos romances tal como na vida real, prosaica e inevitavelmente; mas gostamos de ver as mortes ficcionais como um acidente ou um espetáculo, não como uma experiência que vamos partilhar. Há uma cena de morte quase no fim do livro – um homem, depois de uma vida de trabalho excessivo e sofrendo as consequências da tortura, a morrer de velho aos 67 anos. Vemos a morte através dos seus olhos. Penso que ultrapassa todas as cenas de morte dos romances que conheço. A verdade contada por Saramago nasce de uma rara combinação de inteligência, feroz coragem artística e intensa ternura humana. No discurso do Nobel, ele disse: “Só não tenho a certeza de ter assimilado de maneira satisfatória aquilo que a dureza das experiências tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude naturalmente estóica perante a vida. Tendo em conta, porém, que a lição recebida, passados mais de vinte anos, ainda permanece intacta na minha memória, que todos os dias a sinto presente no meu espírito como uma insistente convocatória, não perdi, até agora, a esperança de me vir a tornar um pouco mais merecedor da grandeza dos exemplos de dignidade que me foram propostos na imensidão das planícies do Alentejo. O tempo o dirá.”

O tempo dá agora aos falantes de inglês a possibilidade de verem com que qualidade ele trabalhou para servir e merecer tanta grandeza no seu romance inicial. Já sabemos com que fidelidade ele prosseguiu este estóico e convocatório espírito ao longo de todo o seu trabalho.

 

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