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Claudio Magris: "...como me comovi profundamente" na última visita a Saramago

Lunes, 22.07.13

Logo que soube que tinha sido atribuído o primeiro Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, o escritor triestino Claudio Magris escreveu ao presidente do júri, Guilherme d'Oliveira Martins. Com autorização do remetente, a Fundação José Saramago transcreve na íntegra essa carta em diz que de vez em quando folheia o exemplar de "Os Lusíadas" que comprou aos 14 anos. Termina a missiva com a recordação de encontros com o Nobel português e em particular, da comovente visita que fez a Lanzarote, pouco tempo antes da morte de José Saramago - visita documentada na fotografia que reproduzimos aqui.

É este o texto integral da carta de Claudio Magris:

"Desejo expressar a minha mais profunda gratidão por este grande, generoso e totalmente inesperado reconhecimento que me chega de um país que sempre esteve presente na minha fantasia, nos meus interesses, no meu imaginário.

Não sou um lusitanista e infelizmente não falo português, mas a história, a civilização e a literatura desse pequeno grande país sempre desempenharam para mim um importante papel, sempre me estiveram presentes. Talvez porque se trata de uma enorme civilização de mar, elemento essencial da minha sensibilidade e do meu ser, de um pequeno país que se tornou num império do mundo – no mais lato sentido do termo e não só no político – e como poucos outros foi um teatro de encontro, e como sempre também de confronto, em suma, um palco de protagonismo no grande teatro do mundo.

Estou demasiadamente surpreendido e emocionado com esta notícia para poder elaborar um discurso ordenado e gostaria assim de exprimir tudo o que me vem ao espírito: a grande literatura, lida em tradução, mas que profundamente me marcou – aos 14 anos comprei numa velha livraria de Trieste uma tradução italiana dos Lusíadas, que  frequentemente folheio; mas também a clássica, começando pela excepcional História Trágico-Marítima, que foi essencial na minha educação para o mar e para a poesia do mar.

Em Portugal, na foz do Douro, escrevi um dos meus contos, O Conde, que, deixando de parte a sua eventual qualidade – que não me compete a mim julgar – exprime profundamente a essência daquilo que sou e gostaria de ser; e também em Portugal – mais tout se tient – saiu, em termos absolutos, a primeira tradução de uma obra literária minha de ficção, já que até então apenas haviam sido publicados ensaios em tradução alemã. Refiro-me a Illazioni su una sciabola, Ilações sobre um sabre.

Foi portanto nesse país, tão generoso comigo, que se iniciou a minha navegação na própria e verdadeira literatura. Recordo o quanto me marcou a apresentação desse conto em Lisboa; recordo a presença calorosa e afetuosa de amigos que o ficaram ao longo da vida, e uma fulminante e generosa intervenção de Saramago, ali presente, que me disse:” O teu narrador (o protagonista-narrador do meu conto) não é inocente…” Observação que foi como uma semente que mais tarde germinou.

E recordo ainda, tempos depois, um extraordinário encontro com Saramago, pouco antes da sua morte em Lanzarote, e como me comovi profundamente ao ver que uma prateleira da sua biblioteca era dedicada aos meus livros. Também esse dia foi para mim um grande prémio, ao qual se junta agora este, pelo qual lhe expresso toda a minha gratidão."

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publicado por Fundación Saramago

Claudio Magris distinguido con el primero Prémio Europeu Helena Vaz da Silva

Lunes, 22.07.13

O escritor italiano Claudio Magris, 74 anos, venceu o primeiro Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a divulgação do Património Cultural, instituído pela Europa Nostra em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa.

Quando o prémio foi divulgado, na noite de domingo, Claudio Magris, passeava-se (e passeia) pelo alto mar, segundo uma nota divulgada pelo Centro Nacional de Cultura, e enviou uma mensagem ao presidente do júri, Guilherme d’Oliveira Martins (presidente do Centro Nacional de Cultura) na qual expressa a “mais profunda gratidão por este grande, generoso e totalmente inesperado reconhecimento” que “chega de um país que sempre esteve presente na minha fantasia, nos meus interesses, no meu imaginário”. “Não sou um lusitanista e infelizmente não falo português, mas a história, a civilização e a literatura desse pequeno grande país sempre desempenharam para mim um importante papel, sempre me estiveram presentes. Talvez porque se trata de uma enorme civilização de mar, elemento essencial da minha sensibilidade e do meu ser, de um pequeno país que se tornou num império do mundo – no mais lato sentido do termo e não só no político – e como poucos outros foi um teatro de encontro, e como sempre também de confronto, em suma, um palco de protagonismo no grande teatro do mundo”.

Magris escreveu um prefácio à "Viagem a Portugal", de José Saramago, no qual comenta: "Neste livro, que sinto extraordinariamente próximo do meu contínuo vagabundear no mundo e na cabeça, a viagem também penetra não só no espaço mas sobretudo no tempo; é experiência da sua plenitude e da sua fugacidade e ao mesmo tempo guerrilha contra esta última, desejo de reter a tarde que foge e amanhã já não será a mesma, de fazer parar o tempo ou de o manter bem seguro errando no espaço".

O prémio Europeu Helena Vaz da Silva tem como objetivo distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, se tenha distinguido pela sua atividade de divulgação, defesa e promoção do património cultural europeu através de obras literárias, artigos, crónicas, fotos, séries documentais, filmes e programas de rádio e/ou de televisão publicados ou emitidos nos diversos meios de comunicação. O júri é composto por Antonio Foscari, Francisco Pinto Balsemão, Irina Subotic, João David Nunes, José María Ballester e Piet Jaspaert, sob a presidência de Guilherme d' Oliveira Martins. A entrega do prémio, no valor de 10 mil euros, será em outubro na Fundação Gulbenkian.

O júri destaca o conhecimento que Claudio Magris tem da Europa “enquanto espaço de diálogo e de intercâmbio cultural é muito perceptível, especialmente na sua obra sobre o Danúbio", cujo tema principal é uma incursão e um pretexto para explorar e dissertar sobre a cultura centro-europeia, "mas igualmente em toda a sua rica produção literária”.

Nesta primeira edição do prémio, que homenageia a jornalista Helena Vaz da Silva (1939-2002), foram atribuídas menções honrosas a Olivér Kovács e Ozgen Acar. “O primeiro pela mobilização dos cidadãos a favor do Património da Hungria, e o segundo pela luta internacional contra o tráfico ilegal de tesouros do Património com origem na Turquia”.

Na foto, Claudio Magris em Lanzarote, uma das últimas visitas que José Saramago recebeu

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